“Estamos quase lá, eu acho…” disse ele, enquanto dirigia o carro por aquela rua de chão de terra, naquela noite sem lua, cujo céu parecia mais escuro do que o habitual nas noites de verão. Sua esposa então disse: “Devíamos ter entrado na última saída, essa estrada que pegamos não aparece no mapa”. Estavam de férias, a caminho de uma pousada numa cidade do interior do Rio de Janeiro, pra passar uma semana longe da agitação da cidade grande; mas agora, depois de algumas horas perdidos em estradas desertas, uma pequena fagulha de arrependimento rodeava seus pensamentos.
Com pensamento positivo, o marido dirigia. Devagar, porém constante, ele guiava o carro desviando dos buracos maiores e evitando poças de lama. “Você é que é muito teimoso e quer fazer as coisas sempre do seu jeito. E agora? Está de noite, não há ninguém na rua pra pedir informação e não temos idéia de onde estamos”. O marido, tentando não se deixar levar pelas reclamações de sua esposa, entretanto, concordando intimamente que sua teimosia tenha contribuído muito pra situação atual, tentou manter a calma, em silêncio.
Nesse momento a estrada começou a afunilar. Dos dois lados da pequena estrada de terra uma cerca de madeira com arame farpado começou a se estreitar, de modo que apenas um carro poderia passar na estrada. Caso viesse algum carro em sentido contrário, seria um problema. Dos dois lados da cerca, não se via nada, escuridão total, mas poderia dizer que só havia mato, pasto, ou um simples campo plano.
No ritmo devagar o carro seguia seu caminho. Sempre de olho na estrada, para evitar buracos, o marido continuava. Começou a perceber então, no canto da estrada, leves marcas de pegadas de animal. Não se recordou depois se tinha observado se as pegadas começavam de algum lugar. As pegadas, no início fracas, cada vez mais fortemente marcadas na lama começaram a ficar. Aquilo, em meio ao tédio e ao silêncio de sua esposa, se tornou mais vivo em sua mente do que o fato de estarem perdidos no meio do nada. Mais e mais as pegadas ficavam visíveis até que, bem a frente, no limite de onde os faróis conseguiam iluminar, ele viu um vulto parado, como uma estátua, grande. Diminuiu um pouco mais a velocidade e seguiu observando ao se aproximar. De um pouco mais de perto pôde averiguar, era um boi, ou melhor, um touro, sim, era um touro. O animal estava parado, de olhar fixo no carro. O marido então reparou que nos olhos do animal forte e austero havia um fundo avermelhado, que, ao se aproximar, se tornou mais claro. “Está vendo os olhos desse animal, mulher?” ele disse. “Sim, que sinistro, vamos embora logo, vamos”. O marido então passou e deixou o touro para trás apenas seguindo o carro com o olhar. Alguns minutos depois sua esposa disse: “Por onde que esse touro entrou na estrada se ela está fechada com cerca em ambos os lados?”. O marido então pensou por um instante e respondeu: “Não sei. Não havia pensado nisso. Talvez havia algum buraco na cerca que não vimos, ou talvez ele tenha vindo pelo mesmo caminho que nós; apesar de que, se foi assim, ele andou muitos quilômetros, estaria caminhando por muitas e muitas horas”. Sua mulher falou: “Talvez… acho que essa última hipótese deve ser a mais provável. Se houvesse, talvez, um buraco na cerca suficiente pra um animal daquele tamanho passar acho que teríamos visto, será?”.
Depois de aproximadamente uma hora começaram a avistar uma velha, porém grande, casa de madeira aparentemente abandonada. O casal parou e desceu do carro. A escuridão era devastadora. Apenas uma luz fraca reluzia na varanda da velha casa. Eles se aproximaram para ver se havia alguém por perto para pedir alguma informação de como chegar na pousada. Depois de analisar um pouco o ambiente a esposa falou: “vamos embora, vamos voltar para a última saída que passamos, algo me diz que a pousada é por lá”. Mas o marido retrucou: “Calma, deixa eu ver melhor lá dentro, a porta parece estar aberta, não custa nada dar uma olhada”. A esposa “Vamos logo…”, mas o marido se aproximou da porta da frente e começou a abrir vagarosamente.
O que se seguiu não se pode determinar com pura certeza pois foi tão rápido e veloz quanto um relâmpago em um dia de tempestade. Um ruído forte ecoou pela casa abandonada; era como um grito agudo e rasgado que varou a noite escura. O marido teve apenas tempo de ver vagamente um vulto escuro correndo em sua direção através da sala, rumo a porta da frente. Quando ele saiu correndo e ligou o carro as pressas sua esposa já estava entrando no carro. Partiram em retirada o mais rápido possível, agora desconsiderando todo e qualquer buraco, em alta velocidade. Não se teve tempo de saber como o carro capotou na lama. A última imagem que o casal presenciou foi a de um par de olhos vermelhos chegando velozes de encontro ao carro enquanto ouviam sons do galope rápido e depois o barulho da colisão de chifres na lataria do automóvel. Os faróis se apagaram e a escuridão engoliu a todos. A pousada que eles procuravam nunca recebeu pelas reservas feitas.
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